Na noite de 4 de fevereiro, o público poderá curtir o “Musical show em Simonal”. Culpado ou inocente? Se a trajetória pessoal de Wilson Simonal ainda não tem uma resposta definitiva, o talento e a importância do artista nunca deixaram a menor dúvida: ele foi um dos maiores nomes da música popular brasileira e sua obra permanece atemporal, como comprova o sucesso do musical que teve Ícaro Silva como protagonista. O ator reencontra o personagem em ‘Show em Simonal’, que estreou no dia 12 de agosto, no Teatro Leblon (Sala Marília Pêra). O espetáculo tem direção e adaptação de texto de Pedro Brício, com base no original de Nelson Motta e Patrícia Andrade, autores de ‘S´imbora, o musical’, que foi visto por mais de 100 mil pessoas em todo o Brasil.

No musical, Ícaro conta e canta a vida e obra do artista, ao lado de Ariane Souza, Julia Gorman e Aline Wirley, que vivem as Simonetes, as famosas backing vocals que acompanhavam o astro. Elas também narram a história musicalmente, além de interpretarem algumas personagens. “O Simonal cantou muito em boates no início da carreira, despontou no Beco das Garrafas,   então vi que esse poderia ser o contexto para um espetáculo mais intimista, como se fosse um show do Simonal, onde ele cantasse e contasse um pouco da sua história”, explica Pedro Brício.

Eles são acompanhados por três músicos, em uma formação de piano (Ananda Torres), baixo (Romulo Duarte) e bateria (Kim Pereira), inspirada nos trios dos anos 60, como o próprio Som 3, grupo que trazia César Camargo Mariano entre seus integrantes e fez história acompanhando Simonal. A direção musical é de Alexandre Elias.

Pedro Brício afirma que a ideia do espetáculo surgiu quando ele dirigiu ‘S´imbora’ e se fortaleceu durante a temporada. “É um novo musical, como se a plateia estivesse assistindo a um show do Simonal, com o estilo dele, o humor, a interação, além dos grandes sucessos do artista”, conceitua.  Pedro conta que ‘Show em Simonal’ começou a nascer ao perceber nos ensaios a potência que algumas cenas do Ícaro tinham, especialmente nos solos, quando ele falava com o público ou cantava sozinho. “Convidei os atores para fazerem um workshop comigo, experimentando ideias para a construção da dramaturgia e da direção. Depois escrevi o roteiro, fizemos uma leitura e fechamos o projeto. Eu já estava bastante imerso no universo do Simonal, incluí algumas músicas que não estavam em ‘S’imbora’ e também aproveitei muitos números que tinham grande impacto no musical, como a cena da Sarah Vaughan cantando com o Simonal e o ’Tributo a Martin Luther King’”, complementa.

Retomar o papel de Simonal é encarado como um desafio por Ícaro Silva, pois considera que o artista segue em contínuo processo de transformação. “Mais do que o tempo sem fazer esse personagem, interfere em mim a influência de alguns outros que fiz nesse último ano. Estive em outros musicais e filmes, minha cabeça esteve em outras épocas e meu foco em outras histórias. Isso torna o “retorno ao Simonal” um novo desafio, com novas questões, que tem a ver não só comigo ou com os outros artistas envolvidos, mas também com o formato com que estamos vivendo a história dessa vez”, explica Ícaro.

No novo espetáculo, Ícaro ressurge como uma espécie de narrador e ora assume a personalidade de Simonal ora é ele mesmo, dialogando com o público. “Um dos grandes motivos para fazer esse espetáculo é o trabalho do Ícaro, que considero extraordinário. Ter ele em cena, como mestre de cerimônias e narrador, atualiza o espetáculo. Há um espelhamento entre esses dois artistas negros, tão talentosos. Os problemas de preconceito que o Simonal sofreu ainda são presentes na nossa sociedade e o Ícaro, como ator em cena, pode se relacionar com isso, dividir isso com a plateia. Mas a qualidade principal de ter o Ícaro como narrador e ao mesmo intérprete do Simonal é que o jogo cênico se torna extremamente prazeroso, divertido, dinâmico. Ele pode brincar com a ideia de interpretar o Simonal, o que dá uma grande liberdade”, empolga-se Pedro Brício.

A opção da direção é saudada por Ícaro, que acredita que o distanciamento do personagem em alguns momentos favorece a interação com o público, aproximando-o do espetáculo. “O que considero brilhante nessa maneira de fazer é a possibilidade de conduzir o público pela história sem perder a energia do show. Quando sou eu falando, o “momento presente” ganha força, a plateia se deixa tomar pelo som e pela performance. Isso torna o retorno ao passado e ao Simonal ainda mais significativo e nos conecta com sua obra com a devida força que ela tem”, exalta o ator.

No decorrer do espetáculo, Ícaro dá um depoimento contando um pouco de sua trajetória e abordando como os negros ainda são vítimas de preconceito na sociedade. O ator é enfático com a questão: “não narro necessariamente a minha vida no espetáculo, mas falo de uma história que também é minha. A história do Brasil, do preconceito, dos desafios de ser artista, negro e de origem simples em um país como o nosso. Não é fácil falar de questões como essa, mas é libertador. E todas permearam a vida do Simonal, do início ao fim”.

Grande parte da equipe de ‘S´imbora’ retorna em ‘Show em Simonal’. O cenário, novamente de Hélio Eichbauer, remete a um show, com um grande telão que exibirá passagens históricas da vida de Simonal. Marília Carneiro volta a assinar os figurinos e Renato Vieira reassume as coreografias e direção de movimento. As projeções são de Rico e Renato Vilarouca, com designer de luz de Tomás Ribas, em uma realização da Bonus Track.  “Como o Ícaro é o mestre de cerimônias, brincamos com uma estética contemporânea e retrô. O musical anterior buscava ser mais fiel à época nos figurinos, aqui não temos esta preocupação. Meu desejo é que o público assista a um show que tenha o espírito dos shows do Simonal, com aquela elegância e riqueza musical, humor, comunicação única com a plateia e improviso”, finaliza Pedro Brício.

Ícaro Silva colecionou elogios da crítica no papel-título de ‘S´imbora’. O ator já viveu nos palcos outro ícone da música brasileira, Jair Rodrigues, em ‘Elis, a musical’ e se destacou ainda em ‘Rock´n´Rio – o musical’ e em espetáculos como ‘R & J de Shakespeare’. Para concorrer ao papel-título da primeira montagem, mais de 1000 atores mandaram material, sendo selecionados 100 para as audições, onde foi escolhido o protagonista.

O musical celebra a obra e a importância de Simonal, mas não se furta a falar sobre a decadência dele, que foi condenado a um “exílio” involuntário, e toca nos temas polêmicos que cercaram a carreira do artista, sem tomar partido.